Série: nós, gamaliel, ouvimos 2019

1. rebanhão

13 de janeiro de 2020

para começar o ano de 2020 na church of imagination trarei notas relativamente curtas sobre algumas das experiências mais importantes dos autores da banda e do site no ano de 2019. não me alongarei aqui, vamos direto aos textos:

o rebanhão foi a primeira banda a fazer parte de um projeto onde ousei escrever sobre música novamente, projeto que não deu certo pelos motivos e desafios de existência do próprio rebanhão. depois desse projeto eu parei de escrever, definitivamente, sobre música. depois desse projeto eu também parei, definitivamente, de ouvir música. e não quero mais ter relações com esse assunto.
toda a falência desse projeto que se iniciou com o rebanhão me levou a algo que levei como minha raison d’être artística: o desmonte do movimento protestante no brasil. por que o protestantismo brasileiro é assim? por que o pentecostalismo brasileiro é assim? e do neopentecostalismo, o que falar, se é que há algo a se falar? o que é ser rock’n’roll no meio protestante? o rebanhão é uma banda nascida em tempos ainda mais difíceis, onde colocar uma guitarra dentro de uma igreja já era rock’n’roll, onde pertencer a uma igreja e possuir uma banda já era rock’n’roll. já foi muito difícil viver na igreja tendo o mínimo de dilatação em seus sensores e musicando a sensibilidade, de certa forma, embora alguns possam argumentar que ainda hoje isso seja difícil.
e de fato, ainda é.

o rebanhão e seus desafios revelam um profundo desinteresse da igreja de sua época pela arte em sua forma musical. assim sendo, claro, pela arte. ainda que o rebanhão não passe de um projeto instrumentalizado sem compromisso com a arte-pela-arte, usado não como meio puro de expressão mas como meio de evangelização, esse “tipo de pessoa” não tinha muito bem estabelecido seu lugar na igreja. observar o rebanhão e essa época estranha me faz pensar se, hoje, esse “tipo de pessoa” tem de fato seu lugar no coração da igreja ou o tem apenas na vitrine da igreja como atrativo para jovens que desejam um lugar descolado. se as tatuagens, as roupas informais, as gírias em púlpito, são só o espaço conquistado por um rebanhão evangelista que tem como interesse a conquista de novas vidas (como os próprios eram novas vidas quando tudo começou) e não o conhecimento das vísceras de uma vida cristã. se, entre quatro paredes, a igreja ainda não sabe olhar para uma tatuagem, mesmo sendo ela cheia de tatuagens; se os jovens descolados, ao tornarem-se adultos responsáveis por um casamento e filhos, já não passam a selecionar para o círculo de amizade de seus filhos as pessoas “limpas”. e se os adultos e idosos de uma igreja ainda dizem “deu trabalho” para os membros tatuados e “foi comportado” para os membros que não são.
a tatuagem, aqui, é uma figura que simboliza tudo. entre mostrar O Caminho e ser uma comunidade fechada que regula e instrumentaliza a cultura de seus membros, aonde a igreja se encontra? a igreja, afinal, pode olhar para si e se considerar santa através de uma postura de misericórdia? ou a nossa noção de santidade vem do fato de evitarmos, ao máximo, conhecermos quem são as pessoas dentro dela? se descobrirmos os gostos das pessoas como eles são, e não como eles são revelados dentro de um templo de aparências, nós ainda seremos amigos? nós ainda teremos boa consideração uns pelos outros? nós ainda nos chamaríamos de santos?
perguntinha: nós acreditamos em conversão genuína ou jamais namoraríamos um bissexual na igreja? se você nasceu na igreja nem precisa pensar para responder essa pergunta, eu já sei a resposta.

essas questões são trazer a luta do rebanhão nos anos oitenta para os dias de hoje. é estranho pensar que, hoje, vemos essa instrumentalização do rock’n’roll nas quatro paredes da igreja, com guitarrinhas, bateriazinhas, baixinhos, tecladinhos, vocaizinhos, toda essa produção de músicas cada vez mais meio-que-post-rock, como se entre o god is an astronaut e o sigur rós com umas pitadas de u2 para que qualquer um compreenda, com as atmosferas marcadas e já conhecidas por qualquer um que já viveu esse lugar onde se fala do sigur rós. é estranho pensar que até isso precisou de luta para ser conquistado. é estranho ver, e precisar-ver, no rebanhão, uma banda de rock’n’roll. é estranho chamar de rock’n’roll alguém que não quebrou nenhum instrumento no meio do show possesso por emoções furiosas, alguém que não precisou alcançar íntimos fatais do próprio ser e nem nada do tipo. é estranho que simplesmente tocar guitarra seja rock’n’roll. mas, dentro do protestantismo, a forma do rock’n’roll é muito fácil, porque toda arte é difícil.

e isso é o que o rebanhão me ensinou em 2019: que, dentro do protestantismo brasileiro, toda arte é difícil.

 

Você leu um capítulo da série nós, gamaliel, ouvimos 2019

escrito por nubobot42 narrado por gamaliel