Série: nós, gamaliel, ouvimos 2019

6. vavá rodrigues

26 de fevereiro de 2020

devo ter dito isso em algum outro lugar, mas o vavá rodrigues deve ter sido a minha primeira experiência positiva com a música sertaneja. claro que não é comum alguém ouvir isso e dizer “é sertanejo” porque a música com rótulos e letrinhas cristãs sempre levará a identificação “gospel”, mas eu chamaria isso de música sertaneja, mesmo sendo o vavá paulista – na verdade, não sei qual é a exata origem do vavá e não sei se conseguiria descobrir com uma pesquisa rápida.
também não me interessa. não sou lá necessitado de muitas informações para confirmar ou desmentir os meus ouvidos, embora goste que as informações venham e confirmem as coisas, e elas sempre confirmam.

fato é que existem alguns condomínios de rico no interior do paraná onde seu artista sertanejo favorito (se você tiver algum artista sertanejo favorito) tem uma casa para passar tempo sem ser incomodado por ninguém, na beira do rio, provavelmente do paranapanema mas talvez em outros lugares também. as estradas do paraná revelam muitas casinhas onde alguém está morando para evitar o caos da cidade, que nem é tão caótica assim porque estamos no interior do paraná, ou só por uma questão de herança mesmo, porque não aprendeu a fazer outra coisa além de plantar trigo ou cana ou o que mais você conseguir imaginar. as estradas do paraná revelam, inclusive, essas próprias plantações.
a música sertaneja tem bastante conexão com esse ambiente rural. conexão com as belezas, conexão com as toxicidades. a música sertaneja comum, aquela que seus parentes principalmente do sexo masculino exaltam e dizem que é a “verdadeira”, a “clássica”, o “modão”, contém tudo isso, inclusive as toxicidades. junto com as cordas dos violões e das violas uma certa sujeira, uma “poeira” mesmo, um pouco densa, que carrega consigo o histórico da masculinidade doentia da roça. da violência doméstica, do homem que vai atrás de prostitutas mesmo estando dentro de um casamento, do homem que tem múltiplas vidas com múltiplas mulheres (e, por que não?, múltiplas famílias), do pai que não conversa com o filho (principalmente sobre sentimentos (até porque “homens não têm sentimentos”)), aliás, do pai que se comunica com o filho através da cinta. do homem que resolve seus problemas na bala, da violência de bar – lugar esse onde o homem passa suas noites mais divertidas, distraindo-se da sua mulher, “aquele estorvo”. do homem que só se lembra da sua mulher como ser humano quando vê fotos antigas. essa é a masculinidade de interior expressa nas músicas sertanejas clássicas, sem mencionar nomes por hoje.
temos, então, que a conseqüência natural disso é a música sertaneja universitária. onde toda a forma se modificou e, então, essa mesma masculinidade precisa ser encontrada nas raízes da música. o machismo que já não é uma declaração, é uma estrutura. e não cabe a mim continuar esse assunto porque, no final das contas, a falta dessa masculinidade – que já delimitamos o suficiente para entender do que se trata – foi o que me chamou atenção na música do vavá rodrigues. não posso dizer que me recordo de ser perfeito, só nunca tinha visto antes um exercício interessante como desenhar o campo – esse campo, esse onde nasci, cresci e questiono diariamente a sanidade – sem necessariamente exaltar as mazelas do campo.

ouvir vavá rodrigues me deixou feliz e me trouxe esperança.

 

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escrito por nubobot42 narrado por gamaliel