Série: nós, heartshaped stars, ouvimos 2019

1. kelly lee owens

14 de janeiro de 2020

depois de um ano fervente com tUnE-yArDs, björk, gregory and the hawk e outras coisas que não são necessariamente parecidas mas me lembram um ano quente, comecei outro com esse contraste. a kelly lee owens, esse estranho fantasminha gelado das ruas de londres, que não me trouxe formas memoráveis porque não consigo me lembrar de uma música inteira dentro de suas produções mas me trouxe sentimentos, ou mesmo um universo, memorável, porque sempre que penso em kelly lee owens eu “imagino” algo. “gravei” algo. é sempre esse céu cinza, essas calçadas sem cor, essa impressão de que há uma quantidade muito grande de pessoas e nenhuma delas se importa com, nem mesmo imagina, o tamanho das marcas no meu corpo e no meu coração. tudo muito cinza.

me faz pensar sobre o cliché do mundo urbano onde “vários estranhos caminham uns pelos outros e ninguém se cumprimenta”, onde alguns tentariam encaixar algo sobre a pós-modernidade e a liquidez dos relacionamentos, e eu não sei exatamente se o entrelaçamento entre o mundo urbano e a liquidez dos relacionamentos se encaixa. na verdade, julgo serem maiores as chances do sentimento de estranho-no-mundo vir do conhecimento de como somos estranhos-no-mundo. talvez mesmo diante de um quadro da humanidade como um formigueiro a caminhada não fosse assim tão indiferente, é que temos tantos elementos novos para nos analisarmos agora que deveríamos ensaiar revirar os quadros, invertê-los, sacudi-los e depois voltar tudo ao lugar e ver como ficou, se é que ficou. nós temos facebook, twitter, youtube, os messengers de celular, nós temos um celular. e, se preferimos muitas vezes estar num celular que numa mesa em família, ou captando o sentimento das ruas, dos templos, das padarias, dos restaurantes e tantos outros lugares, é porque nós sabemos demais. repito, nós sabemos demais. nós sabemos que essas pessoas ao nosso redor são verdadeiros alienígenas, que entre nós e as pessoas ao nosso redor há um abismo intransponível de pensamentos, ideologias, quais comportamentos consideramos aceitáveis e inaceitáveis.
muitos anos atrás poderia existir uma maneira de viver onde esse abismo não existia, e poucos anos atrás existia uma maneira de viver onde o abismo era apenas uma impressão, um fantasma. entretanto hoje não temos mais capacidade de esconder como somos visceralmente diferentes de pessoas que cresceram na mesma nação que a nossa, no mesmo estado que o nosso, na mesma cidade que a nossa, no mesmo bairro que o nosso e, por que não?, na mesma casa que a nossa. podemos estar diante de pessoas com quem, com muita maturidade, conquistamos liberdade nas diferenças, mas em maior parte do tempo nos percebemos tendo inimigos da nossa intimidade que estão num raio de distância muito insignificante.

a kelly lee owens, então, me traz à memória com o seu próprio universo o que é estar nesse mundo de inimigos, sendo e tentando ser um fantasma. carregar uma série de marcas num mundo de inimigos é uma sobrevivência difícil, um exercício que carrega consigo seu próprio terror existencial. sendo as mãos humanas garras capazes de dilacerarem seu corpo já frágil, já fragilizado, e que as palavras podem e provavelmente seriam, caso bocas fossem abertas, como bisturis mal-intencionados que desejam abrir feridas que estão há tanto tempo lutando para cicatrizarem. a metrópole oweniana não é necessariamente todo esse campo minado humano funcionando e a sua travessia direta, mas como se a descoberta desse campo minado oculto e uma maneira de contorná-lo, passar despercebido, “pela tangente”.
todas essas pessoas com quem não me importo. todas as pessoas que não se importam comigo.
todas essas pessoas que não sabem o turbilhão de sentimentos dentro de mim.
todas essas pessoas para quem fantasio minha performance desvairada. cheia de gritos, cortes, lágrimas. joelhos no chão, mãos no chão, rosto no chão.
todas essas pessoas para quem eu não existo. todas essas pessoas que não existem pra mim.

 

kelly lee owens é a oposição a todo pensamento de que algo mudou e nos fez deixarmos de nos importar uns com os outros. nós estamos, e aí acrescento uma colaboração nada musical de um amigo teólogo, debaixo de uma sociedade cuja religião mais falada é a de um homem que dizia, há dois mil anos atrás, que deveríamos começar a nos importar com as pessoas, e essa religião permanece sendo um fracasso – afinal de contas, o céu ainda não desceu na terra. nós nunca nos importamos uns com os outros, talvez tenhamos começado só agora, mas sou cético de que tenhamos de fato começado. nos nossos milhares de anos de história nós sempre vivemos desertos líquidos, campos líquidos, feudos líquidos, e agora cidades líquidas.
a diferença é que, hoje, nós sabemos.

 

Você leu um capítulo da série nós, heartshaped stars, ouvimos 2019

escrito por nubobot42 narrado por rebecca