Série: nós, gamaliel, ouvimos 2019

2. sérgio pimenta

16 de janeiro de 2020

o sérgio pimenta deve ter sido uma das minhas primeiras descobertas sobre essa "cena obscura" do protestantismo musical brasileiro que é... o protestantismo musical brasileiro, propriamente dito. antes disso devo ter ouvido o joão alexandre, o grupo pescador, o grupo semente, o vencedores por cristo... sei lá. sei que o sérgio pimenta é uma peça-chave dessa cena.
acho que, se encontro algum apoio no que gostaria de ter feito, encontro nesse lugar. embora não possa dizer que era a intenção do sérgio pimenta fazer a música como-ela-é porque, no final das contas, o cenário da vpc ainda é o cenário da evangelização, posso dizer que esse é o cenário mais honesto, que culminou em algo muito mais honesto do que tantos outros. é um alívio enorme perceber que não há nenhuma espécie de "teologia da prosperidade" nas músicas do sérgio pimenta, e digo "músicas" com uma tristeza enorme, porque o sérgio morreu antes de gravar um disco (ou ao menos não consegui encontrar nenhum disco na internet, tive que me contentar com as coletâneas).
a cena do sérgio pimenta carrega nas costas um protestantismo um pouco mais responsável, um protestantismo que é capaz de sentir certa repulsa pela indústria fonográfica da música gospel porque há, no meio das limitações de uma musicalidade que infelizmente veio da importação da sacralidade americana, um interesse sincero, verdadeiro, pela expressão. talvez eu esteja usando palavras complexas demais, teológicas demais, porque posso estar querendo condensar toda a experiência de 2019 no simples "2019.2". peço perdão. tentarei destacar um atributo e tecer todo o resto, se é que há resto, com isso. o que quero dizer é que sérgio pimenta traz uma música protestante sem escoras, que não depende de liturgias para existir, não depende que o ouvinte esteja no meio de um grupo de pessoas batendo palma e levantando as mãos para que consiga sentir algo, não depende que o ouvinte se envolva em seu aparato espiritual para que, num transe interagindo com Deus (ou "seu deus"), sinta algo. para quem não sabe do que estou falando: a música protestante distante da cena de sérgio pimenta costuma não existir por si só e não fazer do ouvinte um recipiente e sim servir como um entorpecente, algo que o ouvinte precisa "experimentar" para atingir um "outro plano" que não faz parte da música mas do próprio ouvinte. não tem intenção de ser música, é assumidamente um instrumento para a experiência da religião, embora tome para si o título de "música", tome para si uma indústria e até tente construir uma cultura - usurpa o processo criativo e o transforma em talismã teológico, o "trancar-se no quarto e exercer espiritualidade" como um batismo simbólico, sacra, mas principalmente místico do valor da música como se, para qualquer um que já descobriu o que há além das paredes da igreja, o "trancar-se no quarto e exercer criatividade" não fosse um processo rotineiro com até mais intensidade mística que isso. ainda que eu saiba que teólogos e pastores possam querer me explicar "a diferença entre os dois", talvez até de maneira fervorosa, devo dizer que eu, gamaliel, o teólogo da church of imagination, não tenho intenção de trabalhar a arte como teologia mas a arte como arte e, quem sabe, a teologia como arte.
voltando ao assunto: não caindo nessa estranha malha, a música de sérgio pimenta tem capacidade real de tornar-se cultura, de encabeçar uma cultura protestante de fato. algo que a cultura de música gospel entorpecente não consegue perceber é que o tempo passará e o frenesi dos jovens adoradores irá embora. que, trabalhando a música como droga espiritual, assume-se o hedonismo espiritual; e sabe-se muito bem a escandalosa representação da realidade que o termo "hedonismo espiritual" tem na igreja evangélica, já que as pregações sobre o "cristão de acampamento" existem há no mínimo dez anos, e que o "cristão de domingo" ainda é a realidade majoritária da igreja. embora eu não consiga de forma alguma concordar com a bruteza de um luiz sayão e não dê importância ao "valor teológico das letras" quando estou com fones de ouvido, ele tem razão ao trazer o assunto à tona porque, conversando sobre letras, acaba esbarrando no assunto da consistência da obra (e veja que "consistência da obra", "tornar-se cultura", é um assunto irrelevante quando conversamos sobre arte porque é o feijão-com-arroz, é a base, presumimos que estamos partindo daqui e não chegando aqui). ao olharmos para a "cultura gospel" e a indústria daqui a vinte anos como conseguiremos acesso ao que está acontecendo hoje? será possível para alguém, no mundo de 2040, entrar em contato com o universo musical gospel da atualidade, ou ele não é um universo musical mas uma "experiência"? como é possível estarmos chamando de música algo amorfo, "o importante é a letra encaixar, mas a harmonia, a melodia, o tom, nós fazemos conforme a necessidade da platéia ou da nossa equipe"? quem vai enxergar algo de uma música gospel atual daqui a vinte anos pela simples existência da música, e não de instrumentos de linguagem religiosa?
é essa a diferença clara que traço.
eu respeito a "experiência gospel" da atualidade porque, embora muitos possam discordar de mim, vejo como um momento artístico o que acontece dentro das quatro paredes de uma igreja nessa hora, vejo beleza nessa sinergia e ainda reflito muito sobre o que ela "é" (posso acabar concluindo que é "asquerosa", no entanto. também sou dividido com relação ao grateful dead. e nós, que já lemos bob sorge, vimos o rapaz dar com a língua nos dentes sobre o grateful dead). mas, fora das quatro paredes, sei que é mercado. é capitalismo, ou "teologia da prosperidade". nos meus headphones, nas minhas caixas de som, não tem valor algum. é vazio, oco, marketing. e pior: de pessoas que acreditam profundamente serem mais que marketing porque foram criadas dentro do marketing musical, não vêem muito mais que isso.
e essa "experiência gospel" antimusical não consegue competir com o legado de sérgio pimenta. tanto é verdade que elas são, ao menos no plano das palavras, inimigas atualmente. ideologicamente inimigas, musicalmente inimigas. a "experiência gospel", vazia de musicalidade, produz pessoas de sensibilidade encarcerada que vêem cristianismo na brutalidade; a cena vpc que tem o sérgio pimenta como um dos mais influentes compositores, pelo simples fato de ter dado à música uma chance, produziu pessoas que, limitadas como são, desafiam-se a encontrar Cristo na alma do brasil.
nisso eu apelo para que sejam tolerantes em tudo o que critiquei até aqui: no cenário protestante amar arte e brasil não é o mínimo, já é muito. é verdade que deveríamos colocá-los ao lado dos atletas mas, diante do que temos, ou desistimos ou temos fé. a alguém que ama a música e nunca vai deixar de ser protestante sobra, então, a fé.

Você leu um capítulo da série nós, gamaliel, ouvimos 2019

escrito por nubobot42 narrado por gamaliel