eu tenho um amigo que gosta muito de ivan lins, gosta muito desses discos gravados pelo ivan lins nos anos 2000 com artistas e bandas desconhecidas, mas não necessariamente gosta das bandinhas em si. ele diria que os artistas são uma expressão fraca de um virtuosismo latino e blablabla, eu não entendo nem metade do que ele fala.
eu diria que o jorge rehder é uma consequência do ivan lins. não existiria porto esperança sem ivan lins. só tem um problema: não conheço ivan lins. aliás, não fazia muita idéia de quem era ivan lins quando passei por rehder.
porto esperança é o único disco de jorge rehder, um já falecido compositor protestante que também fez parte de toda a cena do vencedores por cristo. não é o melhor nem o pior, mas é especial da sua forma. dos compositores desse movimento ele é o que melhor trabalha uma espécie de "limpeza" musical, no sentido de que, ouvindo porto esperança, tenho a impressão de que tudo é muito claro. não há ruído entre meus ouvidos e as ondas do mar, nem meus olhos estão embaçados para ver o céu ensolarado e azul - embora confesse que, às vezes, é legal passar pelo sentimento que vem ao esfregar os olhos no despertar para enxergar as coisas corretamente, ou o sentimento ao piscar, como fazemos quando somos humanos. as minhas lembranças sobre o porto esperança são agradáveis mas estáticas, um agradável disco de pouco esforço auditivo e muito esforço nos olhos já que eles não podem fechar.
esse é um problema que tenho com a vida artística protestante, num geral. entretanto, se costumo ser um crítico fervoroso de tantos problemas que são escandalosos, essa é uma reclamação tímida e natural. eu tenho a impressão de que, nessa tentativa de música protestante, não há um momento para descansar. são sempre cenas! cenas! mensagens! mensagens! sol! mar! barco! Cristo andando sobre as águas! evangelho! evangelho! salmos! bíblia! freneticamente, ainda que o sentimento desse disco em si seja a calmaria. já me antecipo a quem vem falar "é porque isso é ser cristão, não eu mas Cristo, não o meu livro mas a bíblia": vá dormir.
o que quero dizer é que tenho a impressão de que o cristão não tem vida própria, ele gira em torno de "cristandades", e não entenda isso como um indicativo de fanatismo religioso (interprete esse termo da boa maneira ou da ruim), entenda isso como um indicativo de medo. o que quero dizer é que o mínimo que se espera da música é que saia do fundo do coração, e nós sabemos que no fundo do coração não tem apenas salmos, nem apenas mensagens. no fundo do coração há dor própria, há, no caso do protestante, o exercício da fé e também o fracasso no exercício da fé. nós, que ouvimos música, queremos conhecer o seu dia por inteiro. a música É o sacrifício da intimidade em nome da arte, É entregar-se ao som e mostrar-se construído mas também destruído, sem medo da exposição porque, quando colocamos para fora o que há em nós por inteiro, acabamos descobrindo que não é digno de vergonha - se nós temos o dever de nos enxergar como pecadores, mais ainda temos o dever de buscarmos compreender aquilo que deveríamos ser, e o exercício da sensibilidade é um caminho pessoal e até violento mas poderoso para isso. algo que aprendi é que a vida não é feita de mensagens e momentos, a arte precisa do rufar de tambores, das cortinas se abrindo e se fechando, do silêncio. e, se a transcrição da experiência do porto esperança foi o que desencadeou essa minha fala, é porque é o disco mais apropriado para questionar aonde estão esses elementos.
eu senti falta. gosto de jorge rehder, gosto de porto esperança. ouviria várias vezes, várias vezes seria prazeroso. mas, sendo ele como se o maior extremo desse perfeccionismo cinemático do meio da música protestante que é digna de ser chamada de brasileira, uso-o para levantar essa questão a todos, porque a grande maioria é assim. debruça-se de maneira interessante sobre tanta coisa, mas esquece de colocar a imagem de seu coração na marca d'água.
no meu porto esperança deixei uma garrafa com um pedido dentro: um dia ainda conhecerei corações protestantes como eles realmente são.