Série: nós, gamaliel, ouvimos 2019

11. jorge camargo

10 de setembro de 2020

é muito estranho pensar que, no fenômeno da música protestante atual de mercado, não há voz. simplesmente não há. é algo que foi ceifado. a técnica vocal original foi ceifada por uma técnica vocal postiça, talvez espetacular como já cheguei a dizer ao comentar de davi sacer, que alguns chamariam de “tecnicista” por se orientar através do script, da gramática musical do que é certo e errado de se fazer na música, do que se deve fazer e não se deve fazer, como se deve e como não se deve cantar.

na igreja existem vozes bonitas. essas vozes bonitas, dependendo da igreja SE pertencerem a rostos bonitos, vão e estudam canto. e então começam a disputar com outras vozes bonitas quem tem o alcance maior, quem sustenta por mais tempo e outras coisas que não são da alçada de quem não estudou canto. as músicas na igreja possuem muito desse pano de fundo: o vocal gira em torno da disputa de gargantas, as pessoas que tentam se sobressair com seu talento e desenvoltura ao cantar alto e agudo versus as pessoas que secretamente gostariam de fazer o mesmo mas não o fazem por “questões espirituais”.

isso é ridículo. o processo imaginativo que leva a construção desse tipo de música é pobre, a existência vocal em torno dessa arena sonora é triste. todas as músicas se tornam iguais por sacrificarem a possibilidade de “ser música” em prol dessa aventura mesquinha da garganta.

 

jorge camargo não é o único, mas é um destaque para lembrar que esse problema existe. porque em jorge camargo é tudo simples, tranquilo, mas a criatividade vocal de um disco é… suficiente. é agradável. a voz do próprio jorge, as vozes no fundo, tudo suave, tudo realizando alguma maneira de exploração musical.

 

cantar é simples. se estou desrespeitando quem passou anos fazendo isso, ensaiando isso, treinando isso, me desculpe. não é a intenção desmerecer o estudo musical de ninguém, e não é que não sirva pra nada e que não deva ser feito, que o vocal profissional não deva ser de alguma forma aperfeiçoado, mas simplesmente não faz sentido submeter a música à garganta e não o contrário. não é necessário cantar perfeitamente nem ter o alcance mais assustador, é necessário saber musicar palavras que estão no seu coração, é necessário um despertar para uma vida melódica onde as frases vão se construindo junto com um ritmo, onde os próprios sentimentos possuem localização, endereço, embora não um planejamento exato porque é impossível saber o que e como está ali dentro sem entrar lá. descobrir o que está ali dentro é a graça e é o que motiva grandes músicos, o que motiva pessoas que falam a música. ok. mas saber que está em algum lugar, que existe, que É isso, é essencial.

quer dizer, você consegue cantar o que canta jorge camargo? é provável que sim. perfeitamente? é provável que não. importa? muito menos. não consigo conceber como alguém que compõe o “vocal” conseguiria colocar na lista de ingredientes “será perfeitamente cantável”, bem como “deveríamos fazer algo que pudéssemos abaixar o tom ou subir o tom e tudo ficaria bem”, porque o tom diz algo, um tom abaixo já diz outro algo, e quem sacrifica o tom em nome do “range” sem mais nem menos nem consegue imaginar como foi difícil para uma banda como rush diminuir o tom de 2112 pela dificuldade de cantá-la ao vivo, como houve um retrabalho sutil para acompanhar o mergulho no “sombrio”. pode ficar ótimo também, pode ficar até melhor, só é diferente. é necessário saber que são coisas diferentes. é necessário focar no que importa.

 

do contrário, o mundo vai girando, girando, trocando de pele, trocando tudo. e as mesmas pessoas continuarão fazendo as mesmas brigas tontas em nome de uma técnica, não musical mas notativa, meramente descritiva, que já nem mais importa.

se é que um dia importou.

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escrito por nubobot42 narrado por gamaliel