não sei se tenho muito a falar do fruto sagrado. tentaremos.
alguém aqui já teve sua época de “oficina g3”? se sim, temos uma banda um pouco melhor. é, um pouco melhor. talvez o fruto sagrado seja um pouco mais “seco” que aquela eventual parafernalha que se tornou o oficina, embora eu não tenha nada contra a parafernalha em si, e talvez nem tanto com o oficina. nem consigo lembrar de algo concreto do oficina.
o que gosto no fruto sagrado tem muita relação com o que gosto no rebanhão. é um novo formato do mesmo rock’n’roll, o rock’n’roll protestante, não porque balança grandes estruturas sociais mas porque ousa balançar estruturas sociais da igreja evangélica, sendo elas dez vezes mais rígidas que qualquer grande estrutura social. a energia da banda também é impressionante, o tempo passou e os amadureceu, mas enquanto estiveram vivos fizeram igrejas questionarem se são heroínas ou vilãs, questionarem a podridão do mundo não de um ponto de vista teológico-supersticioso mas de um ponto de vista real, palpável. eu gosto da teologia do fruto sagrado. talvez esteja errado no meu julgamento pela falta de conhecimento, mas pouquíssimas vezes vi essa “ousadia” numa banda que carrega o rótulo protestante, essa “energia”, canalizada para uma revolta sincera com “o mundo”, um interesse pelo que é de fato o “sistema”. ouvindo o fruto, mesmo não prestando atenção no que eles cantam passo por uma única impressão de que estou de fato acompanhando uma banda que tem um inimigo em comum comigo; não que não preste atenção no que eles cantam, mas gosto disso, gosto de saber a aventura juvenil que está ali dentro.
porque já estou cansado dessas bandinhas de igreja que acham que o inimigo está “lá fora”. que guerreiam contra “o que está lá fora”. que até mencionem que “nosso inimigo não é carne e sangue mas principados e potestades e blablabla”, tudo isso para encerrar o assunto com carnificina enquanto não só não fazem nada contra “o sistema” mas incorporam-se ao sistema como se tivessem nascidos para isso, mantém o sistema, tornam-se por fim os mais fiéis agentes de manutenção do sistema. o fruto sagrado tem inimigos em comum comigo: ele se interessa em saber o que é “o mundo”, quem é “nosso inimigo”, “o que nos traz aflição”. talvez seja um pouco despojado demais, e talvez use instrumentos que dificilmente conseguiriam arranhar as estruturas mais profundas, mas acho que não. acho que quem conhece as pessoas que ouviriam fruto sagrado sabe que eles fizeram um bom trabalho.
eu gostei do fruto sagrado, do fundo do meu coração. como ato teológico e como ato político. como música também… ao menos um pouquinho mais do que quase tudo o que eu, gamaliel, ouvi em 2019.
obrigado por nos lembrar que o nosso maior inimigo está dentro de nós. e obrigado por lembrar que cristãos têm responsabilidade com o pobre, com o negro, com a periferia (uma pena que ninguém nunca lembre dos lgbt). e obrigado por nos lembrar que ser cristão é lutar contra o capitalismo, não porque vocês viram isso numa propaganda de banco disfarçada de comunitária, mas porque perceberam com seu próprio sangue que o capitalismo traz consigo germes da destruição do “sétimo dia”. uma pena que já no início desse século havia falsa simetria de equivaler capitalismo e socialismo, mas tudo bem, vocês foram ótimos. uma pena que foram esquecidos pelo mercado voraz da música gospel.
agora, combinemos uma coisa: discos inspirados em dream theater não né, pelo amor de Deus. (tudo bem, tudo bem. está permitido também. quem nunca se inspirou em dream theater uma vez que seja na vida?)