meu pai ouvia grupo elo.
num pendrive com as mesmas músicas gospel, maioria antigas, algumas novas. ele toca aquela “vim pra Jesus Cristo… e da vida eterna vou gozar”.
o grupo elo é interessante.
interessante porque, e não gostaria que isso fosse apenas uma piada com o nome, ele faz um elo entre o “sagrado” e o “profano”. não, não é a idéia por trás da “banda de rock gospel”, nem quero dizer que é uma banda hipócrita, e nem eu necessariamente sou a pessoa que faz esse tipo de distinção. é porque o grupo elo é o tipo de banda que não jogou fora o que há dentro da igreja, aquela tradição antiga, aqueles instrumentos antigos, elementos antigos. mas, mais do que isso, não jogou fora a imaginação de uma igreja antiga, com poucas pessoas se reunindo para conversar, tomar café, comer pão, beber algo leve, sem aquela barulheira de quem coloca no peso do discurso o significado da comunhão. é tão velho que não tocaria na igreja hoje, qualquer igreja, que não fosse aquelas tentativa de isolação temporal onde as pessoas ainda se vestem e vivem como se fossem crentes dos anos 80 (curiosidades: essas comunidade existem. existem bastante, e existem bem), ou aquelas igrejas com um compartimento secreto onde algumas pessoas se vestem e vivem como se fossem crentes dos anos 80 e, depois, no dia seguinte, voltam ao ano de 2020 para não assustar os jovens.
o grupo elo é portador de uma paz que não existe mais nas igrejas. a igreja do worship music, para simular a paz, fabrica uma espécie de vácuo, fabrica um silêncio – como se em falso antagonismo ao david quinlan, que fabricava um silêncio por meio de um barulho violento, prolongado, descontrolado e por fim desproposital; nesse caso, trata-se de simular espaços ocos dentro do som, como se forçando o ouvinte a uma introspecção inexistente, forçando-o a um “momento com Deus” ao colocar instrumentos artificialmente no plano de fundo reproduzindo esse céu artificial por meio deles, e ao vazio cabe a função de terminar o trabalho. um vazio prolongado, um eterno oco, às vezes mais de dez minutos do mais absoluto nada.
de certa forma já devo ter descrito isso antes, mas estou fazendo-o assim agora para mostrar quem é o verdadeiro antagonista da paz da worship music: o grupo elo. porque o grupo elo é a paz, como ela é. o grupo elo é um piquenique no lago, vários quitutes espalhados por quaisquer pedaços de pano, a visão da água se movendo, o diálogo com Deus por meio da introspecção que nunca, mas nunca, se apresentou como um silêncio fabricado, forçado, um “break”, essa espécie de pomodoro espiritual, e sim como uma conexão aprofundada consigo mesmo que não traz o silêncio como técnica mas o volume como representação natural da quietude. tem certeza que é necessário todo um ritual para se calar e se ouvir? um ritual para viver amizades verdadeiras? é tão difícil se encontrar com Deus apenas ao fechar os olhos?
para o grupo elo, a resposta é “não”. se na época do grupo elo essa já não era uma resposta satisfatória, é triste testemunhar o fato de que esses, que não se satisfizeram com essa resposta, conquistaram grande parte do espaço protestante.
ah, outra coisa: pelo amor de Deus, joguem fora bob sorge, as técnicas sonoras da hillsong church, para fazer simulação do “rio do espírito”. é de uma artificialidade sinfônica grotesca. existem lagos de verdade na discografia do grupo elo, da mesma forma que existem “coisas” de verdade em discografias mais do que em partituras e letras, imitem-os. caso tenham ouvido para isso.