Série: nós, gamaliel, ouvimos 2019

7. davi sacer

1 de março de 2020

e essa foi a porta de entrada para outras drogas do movimento pentecostal do rio de janeiro: davi sacer. não sei se necessariamente no mau sentido.
fato: davi sacer é “uma boa produção”, humilhantemente melhor do que maior parte do que se encontra nas igrejas pentecostais hoje em dia. embora o próprio ainda seja “hoje em dia”.
fato: há um certo tipo de musicalidade e respeito pela musicalidade na obra de davi sacer, de maneira a não ferir demais a sua própria música com uma noção estranha de espiritualidade. a comunidade pentecostal-musical do rio de janeiro, que é de certa forma a barragem arrebentada da música pentecostal brasileira desse século, a música que as igrejas do brasil inteiro cantaram na primeira década e durante parte da segunda década desse século, até que os movimentos de música gospel cem-por-cento importada do rock pseudoatmosférico dos estados unidos com uma ajudinha da inglaterra e da austrália tomaram conta de todo o pentecostalismo. os pentecostais respiraram davi sacer, apascentar de louvor (em sua forma antiga, hoje em dia não vejo falarem tanto do apascentar de louvor), fernanda brum, aline barros, entre outros; assim como respiraram, antes disso asaph borba, adhemar de campos, grupo logos, grupo elo, entre outros.

e, embora há uma certa crítica teológica a se fazer a “letras” do davi sacer, o elemento-chave que incomodou em suas músicas é um apelo pela espetacularização publicitária do som. o davi sacer, assim como todo o cerne de sua cena, é responsável pela mentalidade que culmina em todos os defeitos de um “the send”: o espetáculo publicitário. “para atingir pessoas”. o espetáculo é um elemento interessantíssimo per se, e de forma alguma esse espetáculo incomoda como incomoda o espetáculo espiritualizado das cenas atuais, mas… a maneira como foi feita ainda assim incomoda.
incomoda porque é a espetacularização de mensagens simples. de “sambas de uma-nota-só”. isso porque, no final das contas, a intenção era tornar tudo um espetáculo. o espetáculo da realização de milagres, o espetáculo da prosperidade, o espetáculo da vitória, o espetáculo do crescimento da igreja e do número de evangélicos no brasil, o espetáculo da cura, o espetáculo do êxtase ao entrar em contato com o Criador. tantos espetáculos que, na verdade, não tinham importância alguma. que não nos levaram a lugar algum que não tenha sido a espetacularização das nossas vidas. do evangélico que tenta mostrar ao mundo que “tem coisas”, que tem um “casamento abençoado”, tem carro, tem casa, tem “princípios”, que ganha cargos, que tem ministérios na igreja, que “faz”.
o davi sacer faz parte de um movimento, e se estou falando disso nele e não nesse movimento é porque as músicas feitas por ele evidenciam isso mais que quaisquer outras, que fez a teologia da prosperidade mais danosa do brasil: não aquela do edir macedo e seus filhos, escrachada e escancarada, do “manto sagrado” e da “chave da prosperidade”, mas a que dá a Deus a obrigação de nos fazer vencer todas as batalhas e mostrar o sangue dos nossos inimigos aos outros para evangelizá-los. mas Jesus nunca nos prometeu que venceríamos todas as batalhas, nunca pediu para que manchássemos as nossas mãos de sangue e nunca disse que mãos sujas de sangue eram elementos de evangelização. é a teologia da prosperidade estrutural, que tem como Deus o mesmo da igreja universal, com um pouco de “jogo de cintura” para que nós não sintamos que sofremos “lavagem cerebral”.
e a culpa da aceitação desse Deus não é da nossa igreja, assim como não é do davi sacer ou do ministério toque no altar, porque a igreja é uma instituição formada por nós, e a cultura pentecostal-musical do rio de janeiro dos anos 2000 é reflexo do que estava se passando nos nossos corações. sendo assim, a culpa da aceitação desse Deus publicitário e espetacular é nossa.

ah, e ainda que o que tenha saído do meu coração tenha sido meio duro: eu gosto de davi sacer e sinto falta de pessoas se esforçando para tocá-las nos cultos. não deve significar nada para os ouvintes da church que não têm nenhuma relação com a igreja, assim como não significa nada para sete dos oito integrantes da própria church of imagination que não se importam muito com a igreja, mas… quando, anos atrás, um ateuzinho se sentava emburrado numa cadeira de igreja e não esperava a hora de ir embora para se despedir “daquelas músicas chatas” e “das asneiras de um pastor” para ouvir heavy metal fechado no seu quarto, ele não fazia a menor idéia do tanto que sentiria falta das músicas chatas anos depois quando tudo estivesse tomado pelos clones de hillsong united. não, não fazia a menor idéia.

 

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escrito por nubobot42 narrado por gamaliel