Série:

Eu e o Japão

6 de julho de 2026

Notinha durante a Anime Friends 2026

Eu ainda não escrevi sobre isso com muita profundidade, e nem será agora que vou fazer. Provavelmente vai rolar quando eu for escrever sobre o show da Kyary Pamyu Pamyu, que já vai fazer um ano. Eu tenho muita dívida com a cultura japonesa no meu modo de ser e existir. Crescendo em meio a censura legalizada que é a família evangélica, foi o Japão que me permitiu vivenciar cultura, foi o Sonic do Master System e o compositor Yuzo Koshiro, o CD de 500 ROMs de Mega Drive e Super Nintendo do camelô, foram os animes liberados porque a igreja era muito paia mas meus pais nem tanto, as personagens femininas desses animes e jogos que eu guardava dentro de mim para plantar a árvore de nutrientes afetivos que eu precisava para sobreviver e me entender.
Também foi o Japão que me colocou no mundo da música. Quando eu não podia ouvir rock porque era do diabo, eu ouvia por meio dos jogos de Sonic 3D, com as músicas do Crush 40, tratando as trilhas sonoras instrumentais do Jun Senoue como se fossem shows de rock, até que não me aguentei e passei a ouvir tudo o que quisesse mesmo diante do castigo, da briga, do couro ou o que mais pudesse vir.

Mas isso ainda é história muito primitiva. Fato é que devo ao Japão grande parte da minha construção de identidade, inclusive de gênero. Não recuso minha territorialidade e ancestralidade, mesmo porque sempre serei uma típica negra brasileira travestíssima berrando em shows de visual-kei, mas não posso negar também que eles me ensinaram tudo. A primeira vez que vi um "homem que parecia a mulher mais linda do mundo", o Mana-sama, ainda na adolescência, me chocou e me fascinou muito. Naquela época eu não tive nojo, e fico triste de pensar que minha fase tentando me adequar à igreja tenha me feito me esforçar tanto para adquirir esse nojo. Eu não sei descrever muito bem como via, mas era bem mais positivo do que negativo. A estética gothic lolita me perfurou. Toda vez que eu escrevia uma ficção eu queria uma gothic lolita lá, mesmo que se passasse numa casa de madeira na zona rural de Prado Ferreira.

Anos depois eu tive uma guinada inexplicável na minha sensibilidade artística e existencial graças ao ALI PROJECT. A tentativa de dividir a minha alma em White Ali e Black Ali me permitiu sobreviver e viver a minha transgeneridade pela primeira vez, mesmo que com muito caos, perturbação e ideações suicidas. Eu assistia os shows sem parar e sentia muitas coisas vendo os dançarinos, sempre misturando gothic lolita e dark cabaret, não escondendo que eram crossdressers. Ainda assim, o que mais me fascinava era a própria Arika Takarano. Sempre que eu quebrava e precisava mudar de rumo internamente eu recorria à minha Arika Takarano interior, uma bruxa milenar aristocrata que parecia ter todas as respostas porque acumulava todas as dores do mundo.

Logo depois vieram Kyary Pamyu Pamyu, Perfume e Toshiko Koshijima (CAPSULE), que eram muito compatíveis artisticamente com como "a Lisbeth" desse início de juventude sentia, amava, dançava, além de ter os estilos de composição e produção musical que eu cresci ouvindo nos videogames. Como metaleira eu já tinha um vasto repertório de músicas de tudo quanto é movimento: nova onda britânica, Bay Area, black metal escandinavo, thrash teutônico, metal melódico e sinfônico finlandês, Gothenburg na Suécia, cenas brasileiras de black e power, o próprio visual-kei e outras cenas japonesas, mas essas meninas mega coloridas me bagunçaram todinha porque deram vida àquilo que eu nunca tive a oportunidade de explorar antes na vida: a minha identidade de gênero. A Arika era inacessível e intelectual demais, elas eram meninas que eu queria ser, sofriam por carências que eu também tinha, de um jeito muito eletrônico como eu sofria, e eram muito mais inteligentes, sensíveis e sarcásticas do que esse romantismo colorido dava a entender. Por isso ano passado, quando eu estava ali em Chiba no Japão, vendo a Kyary na minha frente, com uma lace rosa, um macaquinho jeans claro e uma plataforma fisherman rosa de uns 12cm eu chorei tanto e fiquei desnorteada sem saber se precisava viver mais: porque ela construiu um figurino pra mim que eu levei treze anos pra conseguir vestir, e eu estava com o figurinho na presença dela. Era como se eu tivesse vencido tudo.

No dia seguinte eu estava em Harajuku revirando lojas de roupas diversas, totalmente perdida, querendo levar tudo mesmo sem dinheiro pra nada. Também porque nada me servia. Mas o mais importante foi ter encontrado a Yellow House, que ficava num subsolo bem subsolo, com uma senhorinha que fala um inglês tão bom quanto o meu e insiste a cada dez segundos que é uma fashion designer de verdade, e vende roupas para roqueiros num geral, mas principalmente visual-kei. Ela tinha fotos com bandas de rock famosas do mundo todo. Eu ponderei por dias se gastaria 15 mil ienes na blusa pela qual me apaixonei, e concluí que sim, eu gastaria. Então eu vou tentar enganar os leigos com essa blusa, que é metade preta e metade branca, uma lace assim, um batom assim, unhas feitas assim, botas assim, dizendo que estou "fazendo cosplay de Cruella". Mas não tem Cruella nenhuma, eu estou sendo visual kei, eu estou devolvendo ao Mana-sama, ao Janne Da Arc, ao Nightmare, ao Versailles, ao LUNA SEA, e até ao próprio Galneryus (que não é bem vkei mas talvez quem viu alguma gravação minha do show na Anime Friends tenha percebido que o tecladista estava usando uma bota de salto do tamanho da minha) o favor que eles me fizeram de me mostrar, bem lá atrás, que eu sempre tive direito de acesso às estéticas que amo, mesmo que não transicionasse. Eu nem sou binária, aliás. Eu não poderia me importar menos com gênero. Travesti é como batizei a minha vida após um rito de passagem, e só. Isso é visual-kei, isso é contracultura japonesa.

É por isso que eu sempre vou venerar o Japão como se fosse minha segunda terra. Eu demorei para ter chances com o Brasil, para viver as ruas brasileiras, e sinto muito prazer, orgulho e carinho pelas irmãs e irmãos que tenho conhecido em momentos tão difíceis. Eu adoro os sons da Linn, da Luedji Luna, da Ebony, da NandaTsunami, e eu também adoro sons do mesmo solo que o meu mas vou evitar citar pra ninguém ficar chateado que eu não incluí alguém que merecia. Mas a real é que eu sou uma nerd e otome safada, sempre serei. Sempre vem um "itadakimasu" antes de comer. Nunca vou deixar de gastar uma horinha que seja por dia no computador. Videogame sempre será muito profundo pra mim, um mangá sempre terá a mesma importância de um livro, um anime sempre terá a mesma importância de uma série ou filme, gothic lolita sempre será tão importante quanto boho chic. Sempre serei super introvertida mesmo que me torne uma deputada federal mais famosa que a Erika Hilton. E, aliás, eu sou casada com uma nipo-brasileira, não por fetiche até porque minha esposa não tem tantos traços japoneses assim, mas só aconteceu que eu só consegui me conectar com alguém em um espaço tão hostil para mim quanto a igreja graças a essa herança ancestral. Então até o meu amor escolhido eu devo ao Japão.

E veio no último dia o show do Asian Kung-Fu Generation, de OUTRA cena musical TÃO importante para mim quanto essas. E eu estive lá. Com meu "Look Cruella", para os leigos, classe que não é mais a sua.

escrito por nubobot42 narrado por yasu