Algumas histórias de amor não estão relacionadas a pessoas diferentes. Algumas histórias de amor são sobre um único ser humano. Não ao seu ego, mas de amor e gratidão a todos os pequenos detalhes do coração.
O ser humano é um bicho complicado. Uma coletânea de angústias, sofrimentos, construções e desconstruções, pequenos momentos de alegria, grandes conquistas, grandes perdas. Viver nunca foi uma missão fácil. Às vezes nós perdemos, e simplesmente perdemos, e simplesmente ficamos ali, quebrados, esparramados no chão, tentando gritar por ajuda mas fracassando até mesmo em liberar a voz. Não é uma tragédia, não é uma anormalidade, não é uma doença; está impresso em cada um de nós.
Tudo o que passamos enquanto estamos quebrados é natural. Toda a nossa fragilidade é natural. Todas as nossas inseguranças, toda a colisão da nossa visão limitada do mundo com ele em si. O nosso introspecto é uma arte, uma arte divina; um desenho maravilhoso que possui quantas cores quisermos, como quisermos, com sons correspondentes; que está sempre disposto a ser expandido com a fé, com o entendimento, com o amor.
Por que queres lutar tanto para não sentir o que está aí para sentirmos? Por que contaminas a pureza do que lhe foi, genuinamente, dado para que desfrute? Por que limitas a criatividade dos teus pensamentos, tens tanto medo de viajar grandes distâncias em algo que já é seu? Tens de colocar barreiras tão ferozes para que não saia do plano mais baixo, “racional”, mas coincidentemente mesquinho, autodestrutivo, contra-intuitivo, insensível? Por que não colocas as mesmas barreiras em seus atos irracionalmente maliciosos? Por que, aliás, não colocas barreiras em seus atos, mas colocas uma fortaleza inteira em seus pensamentos? Por que o medo de sondar o que está aí dentro, pedaço a pedaço, parte a parte, investigar cada centímetro de personalidade, de desejo, de amor sincero pelas pessoas? Por que o medo da verdade, por que o medo de Deus? Eu sempre te perguntei isso.
Muitas vezes eu quero distância de você. Há um abismo entre nós. Não gosto de ser arrogante — minto, gosto muito de ser arrogante, mas adoro essa frase — mas enquanto eu sei cada detalhe de sua angústia, enquanto sei que um abraço pode te destruir e pode te salvar a vida, enquanto sei que um simples carinho no seu couro cabeludo pode te fazer chorar, e o tecido da minha roupa pode decidir te manter acordado ou te fazer dormir; você insistiu por muitos anos ser um verme racional. É engraçado. Eu creio que eu destruí a sua racionalidade mais do que aquelazinha, a que está de sentinela do seu coração agora, como é o nome dela? Lisbeth, né? Era um texto genérico, mas não pude resistir atacá-lo, escritor. Não mesmo. Meu sorriso é muito sincero quando faço isso, você sabe — e pra falar a verdade, eu fui responsável por muitas coisas na sua vida, e em muitas delas fui embora pra casa com esse mesmo sorriso que soltei agora.
E eu me orgulho disso.
Eu nunca soube como te fazer deixar de ser um moleque. Nunca mesmo, não teria noção de que você insistiria tanto, mas acho que tive sucesso na minha missão primária. Bom, você não é mais um moleque. Mas ainda está bem longe de poder admirar o meu jardim, vir pra cima de mim com os superpoderes de um Homem com H maiúsculo recém-nascido; tenho letra maiúscula há muitos anos, é bonito ver seu despertar para algumas coisas, só que do meu ponto de vista tudo o que ocorreu foi um passinho pra frente. Assim, você está um centímetro mais perto de mim. E aí? E aí que eu vou pisar mais em você se quiser.
E aí que, dependendo do meu humor, eu vou realmente pisar em você. Você tem noção disso? Tem noção de que está disponibilizando os seus sentimentos pra uma pessoa, ranzinza e arrogante como eu, fazer o que quiser com eles? Tem noção do que é se doar a outra pessoa? Tem noção do que significa pertencer a outra pessoa? Tem noção de tudo isso que estou te ensinando? Tem noção do quanto você deve se amar, de quão bonitos são seus defeitinhos de personalidade, de quão atraente pra alguém como eu você é quando senta com aquele olhar meio depressivo cheio de imaginação — um lindíssimo universo cintilante — dentro de suas pupilas? Tem noção de que eu sempre quis responder “sim” quando antes de dormir você se perguntava se valia a pena parar de se odiar? De que eu nunca deixaria você se matar, de que tirei seus brinquedos de perto todas as vezes que você tentou? Tem noção de que doar seu coração não é nada racional, é conceder a mim autoridade para mandar na sua vida tanto quanto você manda, de cuidar de você tanto quanto você mesmo cuida, de te amar tanto quanto você mesmo se ama e te odiar tanto quanto você mesmo se odeia? Tem noção de que é tudo isso que significa? Você tem noção de que seu universo é tão vasto, tão único, tão bonito, tão divino, que é um pecado que você mesmo coloque muralhas nele, destrua ele, faça-o sangrar? O quão você tem noção? Acha que tem noção o suficiente? Eu lhe garanto que não tem.
Sabe por que não tem? Porque chegou aqui novamente. E me perguntou “será que agora eu posso?”. E eu respondi “não”. E você insistiu. E agora eu estou tendo que gastar meu tempo precioso, tempo que eu podia estar gastando dormindo ou te fazendo carinho escondido, pra te explicar novamente que você ainda não é um nada.
Você me entedia. Pessoas num geral me entediam. Mas eu amo esses corações sangrentos, eu não posso fazer nada a respeito; eu sinto dor por eles, eu converso com eles, eu conto histórias pra eles, canto cantigas de ninar a eles. Eu os amo, genuinamente.
Não é por isso que estou aqui te explicando mais coisa novamente?
É porque eu te amo.
Agora sai do meu caminho.
Mas ei,
apareça às vezes. Pode ser que eu sinta falta.