eu queria o controle mas, quanto mais o busquei, mais distante ele ficou de mim. eu lutei a minha vida toda para nunca, jamais, criar sentimentos pelos homens mais manipuladores mas, quando nem mesmo piscava, eu já estava caindo na conversa de um.
eu queria ter sido, a princípio, aquela mulher que se fecha para sempre a isso, mas a vida me ensinou que essa é a única mulher que sofre mais que eu. a ilusão da pureza enquanto se intoxica de pensamentos “e se eu deixasse a conversa ir até o fim?” me fez acreditar que eu estava louca algumas vezes, eu tento nem imaginar o que deve ser isso para a mulher que não sabe o que é estar louca. as fantasias das sensações que eu poderia ter… “e se a dor que eu sentiria valesse pelo sentimento que está subindo pela garganta, saindo quase em forma de vômito pela boca?”. o meu estômago, pobre estômago, se contorcendo como se a curiosidade pudesse se tornar uma gastrite.
eu já amei garotos que nunca teria amado se tivesse dado mais corda e, estúpida rebecca! eu sabia disso. eu nunca fui boba nem inexperiente mas me perdôo porque sei o que é dar o controle da minha vida a outra pessoa que a dirigiu propositadamente ao brejo. os homens são ruins. eu conheci homens dos piores tipos, tive um pai do pior tipo. eu não queria estar na pele de mamãe e saber o que é fingir ingenuidade perante a mais um caso de adultério. quando conheci Jesus eu conversava apenas com Deus, eu não queria que ele fosse um homem. como acreditar que um homem é capaz de não flertar como e com quem não deve, de não adulterar, não ser mau caráter? me poupe!
eu odiei do fundo da minha alma ouvir dele que teria de me casar com um homem, porque a vida e os meus desejos me tornaram uma mulher incapaz de viver sem alguém para me agradar, até mesmo me bajular. queria ser santa mas, quando um homem começava com um gracejo qualquer, era inevitável pensar que se eu o instigasse talvez pudesse fazê-lo beijar o chão que eu piso. isso me causava uma culpa insuportável.
uma vez fiz um pobre menino me dar flores porque eu estava carente e, quando cortei seu barato, ele ficou revoltado comigo. reagi ficando assustadíssima para que ele ao menos sentisse que eu me importava com ele. não era verdade. eu só queria não sentir culpa, mas a culpa não ia embora.
sempre fui apaixonada pelo star e, quando o manipulei, quando busquei seu rastejo, ele também ficou revoltado comigo e nós brigamos. repeti o que fiz com o outro rapaz, só que o star atravessou uma barreira estranha comigo. enquanto eu dizia e insistia em dizer que não queria fazê-lo pensar coisas indevidas, mesmo que já estivesse apresentando sintomas de ilusão há meses, ele ficou com ódio de mim. confesso que fiquei balançada, mas já estava acostumada. o que me marcou foi que o ódio dele não estava direcionado ao meu jogo, mas ao meu sentimento de culpa.
eu estou começando a suspeitar que não somos amigos de verdade. você não aguenta a pressão dos seus sentimentos, o que é perfeitamente normal, e a única coisa que importa a você é que você não queria ter errado. você só se importa com a sua culpa, com a sua imagem de mulher santa. você não se importa comigo.
aquilo doeu porque ele me deu dois socos de uma vez: me mostrou o quão egoísta eu sou, e também despertou amor em mim por ter me mostrado que me amava. que conhecia essa minha falha de caráter horrível e não se importava com ela. a verdade é que o star é o único homem que conhece alguns dos meus monstros mais assustadores, talvez a história dos mil quatrocentos e quarenta minutos dê conta da nossa grande maioria. ele é uma espécie de calmante para os meus sentimentos de culpa, ele sabe massagear cada uma das minhas inseguranças, mas o mais importante é que ele sabe que são inseguranças. eu carrego comigo a ficha criminal de uma mulher que foi o fracasso de muitos conquistadores, o star carrega a ficha criminal de um grande conquistador, mas eu nunca fiz muita questão de ver homens fracassando — o rastejo é prazeroso, o fracasso me chateia, e sempre fui alguém muito disposta a recompensar esforços — e, conhecendo o star, imagino que ele nunca fez questão de ver meninas se sentindo insuficientes por não terem o feito perder a cabeça.
(perder qual cabeça? ele nunca teve uma)
a nossa insegurança foi como um elo de ligação. nos maltratamos mutuamente por ela mas, assim que nos aproximamos o suficiente, nos identificamos e fomos tentando cuidar um do outro. no começo foi assustador de horrível mas é engraçado ver hoje que, de certa forma, até no começo funcionou. é reconfortante e suficiente saber que nunca é crueldade, sempre é insegurança.
enquanto flertávamos era tudo tão fácil pra mim! eu sabia o que manipular, como atrair, como instigar… mas e depois? que ele estava do meu lado, aquele homem que eu chegava a salivar pensando no que poderíamos fazer, mas que estava ali porque eu tinha o capturado numa teia óbvia e inescapável? como provar pra mim mesma que meu “pretty boy” estava ali porque queria e não porque eu o coloquei lá? o forcei a estar lá? que eu não o ouviria dizer “eu só estava confuso, rebecca”, não sentiria seu beijo de despedida, e então aquela pessoa a quem dediquei meus sorrisos, a minha personalidade, o meu corpo, as minhas idéias e pensamentos, já não mais me acordaria com um “bom dia”?
isso dói.
a gente finge que se acostuma mas é mentira. essa chama que arde no meu peito e busca com urgência um abrigo não foi feita para viver de incertezas. sentir falta de bom dia é um castigo horrível. uma vez amei um amigo meu e ele foi embora de mim, eu levei cinco anos para parar de puxar assunto idiota com ele esporadicamente. eu nem me importava com a reciprocidade, só queria de volta a sensação que tinha quando ele me dava “bom dia”, e então eu conseguia essa sensação por um momento, e então lembrava que era apenas um momento, e então corria para a minha cama pra chorar e escorrer algumas das nossas memórias.
confiei um tsunami de sentimentos ao star e talvez morra se ele não cuidar deles. eu sou assim, cheia de sentimentos. eu me esforcei para me tornar uma mulher fria mas infelizmente o cinema não deixou. no entanto, estaria mentindo se dissesse que o star me persuadiu a confiar nele. a nossa história é que foi escrita nos céus para que eu saiba que não confiei na terra e sim no céu, e que, quando a terra desmoronar, eu ainda tenho um céu para me segurar.