SΓ©rie: notas mais curtas que um beijo

2019/02/15

15 de fevereiro de 2019

 

a dinâmica do poder é cruel. o poder é um monstro que não deveria estar ali. quando penso no quão ridículo é o meu temor, noto que não deveria estar ali. você já pensou no quão ridículo é o sentimento de poder? e que é totalmente inevitável, só está ali, como se você já tivesse nascido com ele? eu não me lembro quando foi a primeira vez que tive contato com “o” poder, seja com possuir, seja com ser possuída. não lembro qual veio primeiro. o desafio de quem nunca sente que há acasos para a impotência, que a culpa é de alguém, que alguém tem capacidade de manipular as suas cordas.

se você nunca sentiu isso não se preocupe. você não vai sentir só porque te contei que existe, eu teria que te colocar de joelhos para você saber o que é isso. despertar em você o poder. parece tanto que estamos num videogame! talvez a sua curiosidade te leve a conhecer uma mulher como eu, e aí você vai sofrer, mas não estou aqui para te fazer sofrer.

o poder é quase um mal absoluto. pra mim, ele não tem um fim em si mesmo, ele não serve pra nada. só é gostoso, irresistível às vezes. ou talvez eu não entenda pra que ele serve já que nunca vivi uma vida sem ele para saber o que falta quando não se tem. eu… não sei nem por onde começar.

será que é melhor? será que é melhor confiar nas pessoas? será que é melhor ver o mundo externo, não o interno, de dentro para fora? será que é melhor não enxergar oportunidades de inverter os pólos humanos?

eu me entristeço quando penso que a maioria das pessoas vivem sem medo de serem manipuladas. quando isso acontece seus mecanismos de defesa são fortes o suficiente para as blindarem, para que elas pensem que a culpa é dessas pessoas do mal que, sei lá, sabe? eu não sei continuar esse discurso porque nunca acreditei nele, nunca sequer tentei. ser manipulada mexe comigo porque eu sei que quis, sei que ofereci minha mente — essa maldita! porque EU queria que as coisas que me disseram fossem verdade, EU queria ser coisas que não posso ser, tenho essas carências que ninguém sabe muito bem de onde vêm e para onde vão.

sei que a minha mente foi como um boizinho para o matadouro por culpa minha. se eu não quisesse tanto acreditar que sou única, que sei o que ninguém sabe, vivo o que ninguém vive, faço o que ninguém faz… se eu não cobrasse dos outros a segurança que eu também não tenho. se eu não me sentisse insatisfeita com as palavras e sinais aparentes, se eu acreditasse e respeitasse o ritmo vagaroso do crescimento dos sentimentos ao invés de descartá-los porque não foram intensos o suficiente, como se pudessem sê-lo mediante os meus bloqueios e meus baldes d’água fria. e o meu desejo, como ele cresce! como eu me aperto, me contorço, enquanto penso em todas as coisas que você vai me dizer e fazer para me conquistar, porque eu pareci tão fácil a princípio mas agora sou tão! difícil! e você nem cogita, nem imagina, nem pode sonhar todos os meus medos e aflições, todo o horror assassino do meu coração. todos os abusos que me derrotaram e que eu derrotei. você não sabe o que realmente teria de fazer para me conquistar de verdade.

você não conhece os meus desejos e, se conhecesse, correria. você não sabe o que eu faria para não deixá-lo sair da minha caixinha assim que entrasse. e, quando o vejo se aproximando, cheio de coragem e destreza, eu fantasio vê-lo impotente, com todas as certezas de que conseguiu despertar meus sentimentos baseadas em suas experiências mesquinhas, que a mim não possuem valor algum, caindo no chão junto com seus joelhos. se você me conhecesse como acha que me conhece nunca mais falaria comigo, tentaria esquecer que eu existo, porque eu não sou uma pessoa bonita, não sou uma pessoa fofa, eu sou uma pessoa má. eu sou uma mulher cruel. melhor seria se você estivesse brincando com o meu coração feito um canalha, até porque sei que, agora que passei pela sua vida, você se tornará um canalha assim que eu for embora.

e eu vou.

eu já sei que um dia estaremos sentados no banquinho da praça, com você chorando — o que será uma quebra de paradigmas seus, porque você sempre achou que seria machão e jamais choraria na frente de uma mulher — , e eu sorrindo, compadecida, acariciando seus cabelos e dizendo “é melhor você ir, esse momento não pode durar muito tempo. e por favor não acredite que fez algo de errado”, mesmo que a culpa na verdade seja sua sim porque, diversas vezes, eu pedi para que não tocasse em sentimentos que você tocou, e que fizesse por mim coisas que você nem mesmo pensou que fariam diferença pra mim, como se fosse justo você me chamar de especial mas seguir padrões e instruções alheias para lidar comigo assim dizendo na prática que sou uma mulher como todas as outras. será que você diz “mulher é tudo igual, só muda o endereço” na sua rodinha de amigos?

eu já sei que esse dia vai chegar. já tenho meu beijo de despedida ensaiado.

não, você não sabe o que teria de fazer para uma mulher como eu — que já viu seu universo emocional se liquefazer, que já entendeu que é uma mera peça de xadrez no tabuleiro de outras pessoas maiores, mais poderosas, mais ricas — sentir que o tem de verdade. você sequer sabe que a sua conquista, a mim, significa cruzar uma linha onde eu posso dizer, com segurança, que você realmente estabeleceu uma ligação comigo que seria fatal a você cortar. tanto quanto é pra mim. eu não posso apresentar as minhas fragilidades a alguém que, diante delas, teria de correr para não ser esmagado.

e talvez fosse esmagado mesmo tentando correr.

tudo isso porque eu tenho poder. porque, desde pequena, eu sabia o que fazer para ganhar a atenção que queria, o que fazer e dizer para deixar o garoto que eu gostava confuso e então interessado em mim. papai era muito bom de conversa, eu conhecia todas, era só reagir da forma que os homens esperavam que eu reagisse para que a mágica acontecesse. será que algum idiota que me deu um buquê acredita que, com tanta coisa útil para eu ganhar, eu gosto mesmo de ganhar aquilo?

poder.

eu sei como devo cruzar as pernas numa mesa de reunião para mudar os rumos da conversa, porque realmente gostaria que o projeto saísse de acordo com as minhas sugestões. eu sei me prostituir sem que ninguém toque em mim. tanto a linguagem do meu corpo, quanto a do meu coração, quanto a da minha mente, me elevam a uma posição de ave de rapina perante as pessoas, mas eu não queria. eu não sei não ser quem sou, não sei ser pura e inocente depois disso ter sido roubado permanentemente de mim, mas ah, se eu pudesse ter a sensação do amor ser mais do que algumas ligações na mente que logo se desfazem e me fazem ter a certeza de que burra! burra! BURRA! de novo agindo por carência. se minha vontade de amar não fosse uma histeria freudiana mas algo que eu acreditasse do fundo do meu coração. quem sabe eu não teria esses porões de amargura na minha alma.

se alguém tivesse poder sobre mim. se alguém soubesse o que dizer e o que fazer para me deixar louca, louca! doente! perturbada! de paixão, e me deixasse, e me fizesse chorar de noite brigando comigo mesma pela entrega, e me colocasse contra a parede, me assistisse trêmula, perdendo o equilíbrio das pernas, respirando ofegante pela boca, suando e, diante de toda essa monstruosidade onde eu finalmente estaria desarmada e indefesa, olhasse no fundo dos meus olhos, sorrisse gentilmente e me dissesse uma coisa, qualquer coisa, desde que com graça, e seu toque fosse então puro… ah, meu Deus, são tantas condições! eu sei que são, mas esse é o amor para quem tem o poder.

porque, diante de todas as minhas milhares de possibilidades, as pessoas escolheram me usar de todas as formas, mas ninguém nunca ousou me amar.

todos escolheram usar das minhas palavras doces, meu tom de voz angelical. da leveza das minhas mãos, delicadeza de cada um de meus dedos. da flexibilidade dos meus lábios. do tamanho e temperatura do meu colo. da facilidade em convencer os outros de que a louca sou eu, porque eu sou realmente louca. da conveniência de me chamar de tóxica. todos escolheram me usar para afastar os fantasmas dos seus corações carentes e insaciados. os menos cruéis, para me consolar, me disseram que, apesar de tão difícil, no fundo eu era uma pessoa boa. ninguém ousou me amar.

ninguém ousou me amar.

 

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escrito por nubobot42 narrado por rebecca