SΓ©rie:

De 2022 para 2014, 2018, 2019 e 2020

13 de janeiro de 2022

Ato 1

Já quebrei minha vontade de escrever todos os dias aqui, não é? E vai saber se vou publicar isso aqui ainda hoje. Bem.

Ato 2

É, eu fracassei por uma semana seguida em continuar esse texto.

Talvez porque a vida esteja corrida, corrida, como sempre esteve. Mas na verdade a minha vida se tornou um pouco mais corrida do que era antes. Em primeiro lugar, antes de eu começar a trabalhar num emprego e dedicar oito horas do meu dia a algo que, a princípio, eu acreditei que gostasse muito e, depois de um tempo, fui percebendo que não gostava tanto assim, ou que o gosto acabou se diluindo no meio das responsabilidades colossais por trás daquilo que meu gosto é capaz de construir (ou destruir, fica a critério). Antes disso, era como se eu soubesse fazer tudo, mas não pudesse fazer nada.

Em segundo lugar, antes de dedicar uma energia enorme a coisas, pessoas, que me traíram. Até aí, bem, nenhuma novidade. Sempre fui traído pelas pessoas pela minha condição de eterno pentelho, da pessoa chata que fica perguntando, que fica questionando, que fica achando defeito e que está nitidamente incomodada com o que está acontecendo. Sempre me pergunto se a culpa é minha no final de tudo, afinal, é o que sempre acontece comigo, então o problema deve estar comigo. Tudo bem.

Em terceiro lugar, antes de começar a construir uma vida um pouquinho, mas só um tiquinho assim, longe de casa. Sem meus pais, sem meus irmãos. Apenas com uma outra pessoa que ainda me é um pouco estranha, e que ainda me vê um pouco estranho, mas estranhamente nos vemos menos estranhos do que os outros nos vêem estranhos, ao mesmo tempo em que muito mais do que qualquer um pode imaginar.

Em quarto lugar, uma pandemia. Vocês conhecem tanto quanto eu, não vale a pena me estender muito. Ficar preso em casa, apenas com familiares, não saindo para canto algum, passando raiva com o governo e tudo mais. Coisa de gente média, porque eu me tornei gente média, porque eu sou gente média, ou talvez até abaixo da média.

Eu tracei alguns planos, é verdade. Eu tenho a Church Of Imagination, um lugar para falar de muitas coisas. Tentei construir a Church Of Imagination com as minhas próprias mãos, mas o tempo não deixou, todas as noites estou exausto e sem condições de colocar um tijolo sequer dessa igreja. Igreja. Não sei se é o que ela é, uma igreja, um lugar, um espaço, um conjunto de dados, uma sequência de dígitos 0 e 1. Nada. Eu queria construir do zero, queria que tivesse tudo do jeitinho que imaginei, mas não consegui chegar muito longe.

Olhando para trás, sinto que muita energia foi roubada de mim. Acho que passei esses últimos anos num silêncio interior sufocante que tirou de mim a capacidade de, se não imaginar coisas, construir coisas.

Além do mais, ainda devo um Trabalho de Conclusão de Curso de uma graduação que, a princípio, me pareceu uma ótima ideia, mas hoje me pergunto se realmente merecia toda essa atenção, afinal, eu não me vejo exercendo a Teologia em lugar algum, não vejo pessoas interessadas em ouvir da minha teologia, não me sinto capaz e não vejo um momento onde me insiro na história como um líder religioso ou mesmo alguma figura religiosa que tem algo a dizer ao mundo de uma maneira em que o mundo compreenda. Eu só me vejo sozinho com as minhas questões e com a certeza de que essas questões não foram respondidas, ainda que vários mundos insistam que já foram respondidas, ou mesmo que não são sequer questões. Eu me vejo muito sozinho.

Também devo algumas matérias de uma pós-graduação que iniciei apenas porque queria mais dinheiro, mas tornou-se um verdadeiro pesadelo que eu só queria que acabasse. Não dá pra acreditar que uma pessoa como eu terá um diploma intitulado “gestor”. Não dá pra acreditar que, por vezes, eu exerci isso, essa coisa chamada “gestão”, e se você precisar que eu faça isso, por enquanto, eu faço, porque fui criado para morrer de medo antes de morrer de fome. Mas saiba que acredito que um dia, num passe de mágica, descobrirei como me livrar de muita coisa que parece tão importante hoje, só que eu sei, dentro de mim, que não tem importância alguma. Só tenho medo, muito medo, um medo verdadeiramente escravizador.

Eu devo, além de tudo, e talvez principalmente, ao meu “eu interior”, explicações. Porque fui muito paciente comigo mesmo, fui muito leniente comigo mesmo <-> comigo mesma <-> conosco. Porque, diante do caos incontrolável que se tornou a minha vida (mais uma vez), optei por gastar todas as energias que eu tinha para apagar as chamas, e as chamas só cresceram, e agora sou um ser humano em chamas e não sei como mas me acostumei totalmente a ter me tornado essas chamas e cinzas. Eu queria que as minhas vozes da revolta ficassem quietas, mas dediquei anos da minha vida a combater crimes psicológicos realizados por pessoas que nunca deixarão de cometer crimes psicológicos e nunca pagarão por isso, e isso me tornou completamente doente, triste, solitário, devastado por dentro. A dor não passou, o mundo continua igual, não valeu a pena, mas eu não sei se consigo parar, estou pisando no freio há um tempo e o freio simplesmente não aciona muito bem. Já não sei mais quem sou no meio do combate, já me tornei um com o combate, mas isso é risível porque foi um combate que só eu combati. Às vezes tenho a impressão de que só consegui inimigos, que até os amigos que tinha eu perdi, e também tenho a impressão de que queria que as máscaras das pessoas que sempre me odiaram e/ou sempre me acharam ridículo tivessem permanecido em pé, porque doeu muito vê-las caindo.

Tenho essa impressão de que nunca cheguei a lugar algum. Quando ouço meu primeiro disco fico desencorajado a continuar fazendo música porque, hoje, soa muito ruim na maioria das vezes em que ouço. Algo dentro de mim diz que tenho músicas muito melhores a fazer, e realmente as músicas dentro de mim parecem muito melhores do que as que já fiz só que, sinceramente, naquele disco, as músicas dentro de mim pareciam muito melhores do que aquilo que saiu.

Continuo precisando dedicar minhas forças a criar coisas que aumentam a renda de outras pessoas, mas nunca a minha. E agora preciso dedicar as minhas forças a outras coisas que simplesmente estão aí, porque não tem mais ninguém para dedicar essas forças no meu lugar. Como sempre, é bem solitário por aqui.

Queria que 2022 fosse um ano bem diferente dos outros anos. Queria que 2022 não fosse mais um ano de esperas, mais um ano de deixar pra depois, já que nos outros anos não adiantava assumir algo pois logo logo um evento deveria ocorrer. Queria ter forças pra terminar esse maldito TCC de Teologia, onde a dificuldade não está em escrever o trabalho, está em querer escrever o trabalho, está em não trocar o trabalho por algo que traga menos desgaste, já que a vida antes da lua chegar é completamente desgastante. Queria que, quando meu teclado chegasse, eu não o usasse apenas para breves desabafos e então o encostasse novamente, eu queria terminar a minha música que fingi ser sobre Hegel e Schopenhauer apesar de eu nunca ter lido nem Hegel nem Schopenhauer – na verdade li mas foda-se. Minha vida era mais interessante quando isso não era interessante pra mim -, mas na verdade tinha um tanto mais a ver com ter morado por uns quatorze anos na frente de uma linha de trem e portanto ter me tornado um companheiro dos barulhos ao ponto de ver neles diversão e paz. Eu queria ser, e estou entendendo isso dentro de mim, um rockstar.

Mas eu não fui. Eu preferi tentar provar aos outros, a pessoas que de fato não estavam nem aí comigo, só com a minha mão-de-obra e com as minhas frases-de-efeito, que eu tinha algum valor, que o que eu dizia fazia sentido, que existia uma maneira de provar que o que eu estava dizendo era real, era palpável. Só que, como sempre, ninguém se importou. Ninguém ligou. Talvez eu devesse pegar tudo o que essa história trouxe de bom pra mim e absorver, viver tranquilamente e nunca mais tocar nesse assunto com ódio ou raiva, porém não é algo que estou em condições de fazer agora.

Queria contar ao meu “eu” de 2018 que todos os compromissos que você assumiu o deixarão desolado, e que a maioria daquelas pessoas não valia a pena e que insistir nelas te faria quase desistir de seus próprios sonhos. Queria contar ao meu “eu” de 2014 que não existe paz nesse mundo, que não existe coerência interior, é melhor ser perturbado mesmo, que o preço para ser considerado uma existência normal é impossível de ser pago a quem nunca soube o que é viver debaixo da normalidade. É sufocante, é mortal, é venenoso. É sufocante como uma asfixia, mesmo. Admiro muito a jornada que me fez deixar de me afogar dentro de mim mesmo para dominar essas ondas, mas eu só precisava chegar até aí, eu não precisava querer que as ondas parassem de vir. Tudo bem ser mar, nem tudo precisa ser lagoa. Entendo a necessidade de ter procurado calmaria a qualquer custo, equilíbrio a qualquer custo, sei que doeu demais, que foi como tomar facadas todos os dias e isso precisava parar, mas já parou, já passou, já sarou, você já pode viver novamente. Queria contar ao meu “eu” de 2020 que não adianta tentar convencer ninguém que você não é uma pessoa ruim porque ninguém está interessado, deixe essas pessoas irem embora e vá tocar seu teclado, vá escrever algo que goste, vá aprender a filmar coisas bonitas ao invés de deixá-las escorrer pelas mãos porque ninguém mais está vendo o que você está vendo.

Mas o que eu queria mesmo era que, para o meu “eu” de 2022, daqui alguns anos, eu pudesse dizer “Parabéns. Você voltou a ser você. Era o que precisava”. Então que 2022 me ajude a voltar a ser eu. É o que eu preciso. Eu preciso muito.

Pode ser mortal se eu não conseguir.

escrito por nubobot42 narrado por elliot