Ainda estamos começando mas não vamos perder a conta, essa é a mulher número -2, né?
Acho que sim.
Já faz um pouco de tempo e as informações não estão fresquíssimas na minha mente, mas é mais um daqueles relatos de ônibus. Aparentemente é a melhor maneira de se obter saldo (negativo) de mulheres, o que é mais que necessário para que eu me mantenha no zero a zero até o fim do ano - não é, na verdade, mas já que estamos nessa rotina vamos que vamos. O fato é que existem muitos relatos ótimos que necessitam de atenção, extração cautelosa e retratação com detalhes.
No outro post, relatei que era normal que eu entrasse no segundo ônibus desacompanhado e o amigo fora uma exceção conveniente. Nesse caso, tive duas inconveniências extremamente chateantes:
1. tinha uma mulher com três pirralhos, um deles chorando alto e fazendo birra e minha vontade de virar serial killer;
2. meu MP3 estava tocando forró. Não, não forró universitário, nada disso. Estava tocando uma marchinha de São João do Luiz Gonzaga por algum motivo inexplicável, isso tornava todas as observações in-transportti extremamente embaraçosas.
Por mais que a 2 seja essencial, anotem bem a palavra-chave do dia: serial killer.
No meu assento próximo da porta, não havia ninguém ao lado para mirar. Era uma mulher, de trinta e poucos anos (ou até quarenta), e por mais que eu ache muito válido ela tinha uma aliança na mão. Respeito antes de mais nada: ditado essencial para uma boa convivência no século XXI, mas nesses casos, seguido à risca apenas pelos virjões (seja fisicamente, seja mentalmente; com o post passado, aprendemos que é possível ser virgem mesmo... não sendo virgem. Deu pra entender, não deu? Se não deu, sério).
Mas eu precisava observar alguém. Meu MP3 ainda é daqueles antigões, MP3 Player mesmo, estilo iPod Shuffle só que sem ser iPod; está permitido pular o resto desse parágrafo, mas contém informações relativamente úteis: comprei quase um ano após minha última relação, por isso, fazendo as contas, ele já vai fazer aniversário de três anos e está comigo pelo quarto ano (???!!?!??!?!). A bateria dele está no limite há um ano e meio, mas eu sou o Magneto e tenho meus truques para mantê-lo vivo, mesmo que fraco. Não posso trocar de música sem temer que acabe a bateria, não posso mudar o volume (isso eu faço antes de sair e, feito, está DECIDIDO o volume da noite toda).
Meu primeiro alvo foi uma novinha que estava brincando com cubo mágico em pleno ônibus. Nada muito deslumbrante no visual, mas era bem catito do jeito que estava. Alguns bancos na frente estava ela, sozinha, aguardando alguém para sentar do seu lado - mas seria insensato de minha parte, né, e além do mais eu decidi que o volume seria altinho e passaria vergonha ouvindo Luiz Gonzaga alto do lado de uma novinha.
Seria pedofilia eu, ainda não maior de idade, com uma novinha pelo fato de que poderia-se somar a idade minha com a idade da música que eu estava ouvindo e eu me tornaria velho pedófilo daí? É só uma reflexão.
Mas daí percebi que tinha o alvo perfeito, e estava do outro lado, em uma cadeira solitária que não tinha espaço para mais uma pessoa. O alvo perfeito para homens pseudomasoquistas século XXI. A mulher com cara de torturadora bruxa malvada (lembrem-se que hoje em dia as bruxas são gatas). Ela mesma!!
Olhar sedutor? O caralho. Cara de insônia da porra, do jeito que combina comigo.
Conforme as crianças atrás de mim foram fazendo barulho infernal, ela começou a olhar com seu ódio descomunal para trás. E eu fiquei com ciúme. Das crianças, no caso. Ela não poderia estar odiando mais do que eu, que estava bem na frente dos pirralhos.
Minha cara já não é naturalmente agradável, então passei a olhar para trás com ódio nos olhos e uma paixão pelo homicídio no coração. Não estava convencido de que estava fazendo melhor que ela, mas para não levantar suspeitas da mãe, voltei a olhar pra frente. Ela também, depois de um tempo.
Quando parou de olhar, comecei a notar que ela estava numa posição meio confortável demais para os olhos cheios de hormônios deste pequeno garoto. A roupa era bem colocadinha e tal, nada vulgar (toda preta ainda, S&M na veia), mas sentar de modo estratégico no banco é sentar de modo estratégico né. Aí aqueles olharezinhos disfarçados rolam, desrolam, rolam de novo...
...Mas aí os pirralhos voltaram a fazer barulho, e uma nova guerra de ódio foi travada. Não faço a menor ideia de quem venceu, mas o ônibus todo se propôs a participar dessa vez. A mãe até ficou sem jeito, eu curti pra caralho porque enfim nossa disputa seria sem obstáculos. Mas aí cansamos de odiar os outros.
Passamos a nos odiar. Nos odiar, mesmo, sem barreiras.
Ela com as olheiras de insônia dela, eu com as minhas. Tinha acabado de sair de uma avaliação diagnóstico de cinco páginas, nível vestibular, seria ela párea pra minha mistura interessante de sono com raiva? Eu não sabia, era um ambiente que eu ainda estava para explorar.
A disputa era acirrada, mesmo. E não foi só uma. Houveram várias. Tinha sempre o momento onde um de nós se sentia desconfortável e passava a olhar pra frente, ou pra janela, ou pra quem estava do lado. As pessoas do ônibus me olhavam estranho, pra ela nem tanto porque embora ela tivesse as mesmas olheiras que eu, ela era gata.
Parou no terminal, não estávamos nem aí. Nem. Aí. Eu ia fazer essa mulher chorar, e ela ia me fazer chorar. E então continuamos, afinal, eu desço uns pontos depois do terminal.
E quem venceu?
Ela, provavelmente. No final eu sucumbi aos seus desejos (risos você quer).
Ela desceu no mesmo ponto que eu: eu puxei a cordinha pra ela e ainda deixei ela sair do ônibus primeiro como sinal de educação. Se ela me odeia de verdade, ela mora perto de mim e vai me matar enquanto eu estiver dormindo.
...será que ela iria querer meu telefone?