Série: zero mulheres

Menos uma viajante cowgirl de ônibus

2 de agosto de 2011

Não é de praxe que eu pegue ônibus acompanhado - de amigos, no caso, obviamente (risos) -, mas hoje ocorreu de cair uma chuva fraca, mas horrível, na nossa abençoada cidade do interior do Paraná.
E nas chuvas, amigos que vão embora de moto abandonam este privilégio para passar alguns apertos no ônibus. Hoje em especial, muitos apertos.

Primeiro dia da calourada o ônibus é sempre o inferno. E olha que eu não faço UEL, mas prefiro continuar sem saber como é lá - e não corro risco, laboratórios lá sempre começam uns tempos depois das aulas.
Aquela molecada só meio ano mais velha que eu entrando no ônibus e aquela lotação, motorista gritando pras pessoas se apertarem por ali, eu de pé. Mas lindo e pomposo, encostado na janela na localização perfeita aonde poderia conversar com as pessoas da minha sala e não encostar em nenhuma outra pessoa. Experiência no transporte público é sempre vitória.
Outra coisa extremamente legal de se fazer nessas situações é começar a narrar os primeiros semestres do próprio curso. No caso o primeiro. Sempre bom fazer aquela turminha que acabou de sair das aulinhas de Cálculo I ouvir que metade da sua sala já desistiu, sempre.

Mas fases e fases, descemos daquele ônibus no terminal e eu, como dito, ineditamente acompanhado por um amigo, fui até o ponto do nosso segundo ônibus. Aquele é naturalmente cheio, então não houve nenhum espanto por parte de ninguém.
Assuntos começam, assuntos vão, e começo a notar uma cheirosa (tóin) alguns palmos de distância de mim. Jaqueta jeans, calça jeans, pele branca com algumas sardas e um cabelo preto e liso como o de ninguém, rosto bem desenhadinho, olhos negros mas fatais... Parecia um ótimo alvo, mas aí veio um grande obstáculo: bota preta de cowboy. Pra que, velho. Eu nunca entendi o povo de Londrina por isso. Estamos no Paraná, ótimo Estado para agropecuária? Check. Estamos no INTERIOR desse Estado? Check. Estamos no pasto? NÃO, caralho.
Porém ok, esqueci desse detalhe bem rapidamente e voltei a observar o que me interessava de verdade. Defeito todo mundo tem, não é? Já são três anos e meio, não quero completar quatro. E cinco. E seis (p.s.: cegamente escrevi "ceis", demorou um minuto para voltar à minha realidade, apagar e escrever corretamente). E minha eternidade. Dizem "mulher gosta é de dinheiro" e de fato eu terei dinheiro, mas ueeeeeeeeee, eu sou eu, e se for pelo dinheiro não tem graça.

TÁ VOLTEI À REALIDADE DE NOVO
Daí eu olhando para a menina, ela olhando pra mim, rolando aquele climão maneiro (de "acabei de ter Física e Geometria JUNTOS QUERO DORMIR" vs. "TÔ VOLTANDO DO EMPREGO QUERO [CENSURADO]¹"). Eis que meu amigo começa a falar. O grande objetivo de vida do nobre rapaz é começar a namorar e só beijar depois de casar. Tu acha que é casto hardcore? ISSO é castidade hardcore.
...Embora o rapaz, no caso, não seja nem virgem. Só teve "umas experiências ruins" e perdeu confiança nas coisas. O lado bom é que está beirando os quatro anos assim como eu.
...É um lado bom, não é?
Não.

O fato é que estávamos conversando relativamente alto, e minhas risadas estavam relativamente altas também. Eu parecia estar punindo o pobre boy com palavras ácidas (mentirinha, só estava falando que seria um árduo desafio para ele encontrar alguém que aceitasse o contrato de castidade labial), não sabia se estava incomodando os outros e provavelmente estava, mas eu até entendo o cara.

Quando menos percebi, já estava descendo do outro terminal e perdi a menina de vista. Oh, que horrível! Essa com certeza estava sendo alvo da minha sedução imbatível e com certeza eu voltaria com ela pra casa dela aonde teríamos uma noite maravilhosa admirando as estrelas.
Que pena, não é?
Pensando pelo lado positivo, ao menos ela tinha botas pretas de cowboy.

...três anos, oito meses e doze dias.

¹ Piadas que uma pessoa com 17 anos fazia em 2011 mas ninguém deve fazer.

Você leu um capítulo da série zero mulheres

escrito por nubobot42 narrado por heartshaped star