Enquanto andava pelas escuras ruas da cidade, encontrei um ser peculiar. Todo coberto em seus trajes escuros, à minha vista apenas sua mão direita segurando um revólver; moda antiga, um modelo talvez nem mesmo do século passado, com cilindro giratório e espaço para seis balas.
– São três da manhã, meu jovem. O que faz por aqui? – perguntou, sem mover uma palha.
– Eu precisava tomar um ar. – respondi, também sem me mover, um pouco assustado, embora tivesse a impressão de que não era um bandido.
Então apontou seu revólver pra mim, e girou o cilindro. Dedo no gatilho, e mais nenhum movimento.
– Já que já está aqui, eu quero te mostrar pra que servem as cinco balas que eu tenho. Chamo elas de “balas de espírito”. Atiro as cinco e então recarrego, e atiro de novo, até que esteja consumado.
Não entendi ao certo, mas deixei ele continuar. Que opção tinha, afinal? Tomar cinco balas na cabeça?
– A primeira. Bang! – e atirou em meu peito, ao lado direito – Essa eu chamo de “alegria”.
Comecei a sentir uma forte dor, obviamente, já que tinha acabado de ser baleado. A perda de ar era evidente, passei o tempo todo procurando retomá-lo mas estava difícil. Não entendi ao certo como se chamava um tiro de “alegria”, porém achei um fato engraçado e me senti tentado a rir, já que não havia mais nada a ser feito. O que ele tinha em mente? Como me apresentaria cinco daquelas enquanto na primeira eu já estava morrendo?
– Acalme-se. Aí vem a segunda. – e atirou na minha testa – Essa é a “questão”.
Assim que tomei o tiro e percebi que permaneci de olhos abertos, me senti em dúvida porque ainda não tinha morrido com uma bala na cabeça. Não que esse fosse o significado aparente da bala, seria muito estúpido. Ou talvez fosse, de fato. Só que minha cabeça doía, muito, e de vez em quando eu ainda procurava pelo ar. Por que eu procurava pelo ar? Naquele ritmo, eu não morreria de qualquer forma? Bem, ele não me deixou me questionar mais.
– E agora a terceira. – atirou no meu braço direito, meu mais forte por questões destras – Nomeio-a carinhosamente de “raiva”.
Estava doendo, muito. Não que fosse musculoso e tivesse problemas com anabolizantes nos braços, mas era um tiro, seguido de outros dois. Por um momento resolvi me mover e atacá-lo, tirar o revólver de sua mão para que parasse de me fazer sofrer tanto. Quem esse imbecil acreditava ser? Eu estava na rua, apenas caminhando, e ele resolvia me dar vários tiros tentando dar um significado pra eles como se não fossem simples tiros! Dor e morte, apenas! Eu ia dobrar essa arma com minhas próprias mãos e enfiar em seu cu, para que visse o que é bom, para que experimentasse só um pouquinho do que estava me fazendo passar! Filho da puta! Mas assim que me aproximei, me arrependi.
– Quarto! – e atirou no meu olho direito, o menos comprometido pela miopia grave – Essa é a “derrota”.
E enquanto meu olho direito vazava sangue, o esquerdo se contentava em lacrimejar. Honestamente, eu queria ao menos ter a capacidade de ir embora, e de falar pra ele o quanto aquelas balas todas estavam doendo e me deixando agoniado. Eu queria ter morrido já na segunda e ainda assim ele insistia com aquela história. Eu não queria mais saber. Morreria de qualquer forma agonizando ali, não importava mais nada do que ele fosse falar, até porque seria um monte de merda que eu não daria a mínima. A única coisa que eu queria era que ele parasse, e ele não iria fazer isso mesmo.
– Não fique assim, garoto. Lá vai a quinta. – e atirou na minha coxa direita, ainda se aproveitando das minhas características de destro corporal – E essa chamo de “conformismo”.
Essa foi fácil de entender. Não precisava nem explicar. Ou precisava? Nah, realmente acho que não. Apenas caí de joelhos e fiquei lá, esperando o pior acontecer de uma vez, já que não havia saída.
Depois disso ele resolveu ir embora. Simplesmente me deixar ali, no chão, após me dar cinco tiros.
Pra mim tanto fazia mesmo, mas eu tinha apenas uma dúvida antes de morrer, supondo que fosse, de fato, morrer; e supondo que aquilo não fosse um sonho bizarro o qual eu acordaria logo em seguida. Nada mais natural, era de minha natureza sonhar com esse tipo de coisa, pensei, talvez fosse algum tipo de esperança de minha parte também. Não importava, só precisava perguntar de uma vez.
– Me responda, por favor. Você tem uma sexta bala aí, não é? Ela é como as outras cinco, ou não tem nada de especial? – perguntei, tossindo umas quatro vezes durante o processo.
– Ela é como as outras. Vai direto no coração, mata instantaneamente e nomeei-a “suicídio”. Não gosto muito de usar, prefiro repetir as outras cinco.
Daí eu acordei.
O mesmo de todos os dias, mas tomando mais cuidado com o cara do revólver. Não queria obrigá-lo a usar a sexta, preferia repetir as outras cinco.